20 de set de 2009

Totsy e Rotsy - conto

Totsy e Rotsy - 19/12/2004.

Um era preto e outro branco. Como cor jamais foi importante para mim, eu nunca me preocupei em saber quem era Totsy nem quem era Rotsy. O que importava era a amizade que eu tinha por eles, meus pequenos e maravilhosos companheirinhos.
Nos meus doces anos de criança, eu passava horas brincando com aqueles dois cachorrinhos de plástico, com imãs nas bases. Era muito divertido: dependendo da posição, aproximar um do outro os afastava ou unia, em conseqüência dos lados positivo e negativo do imã. É claro que eu não entendia o motivo. O que me importava é que eles se afastavam ou se aproximavam como num passe de mágica. Ainda não havíamos entrado na era da eletrônica. Pequenos e simples brinquedos nos faziam extremamente felizes.Totsy e Rotsy. Não sei quem deu nome a eles. A minha pouca idade não permitia que eu me importasse com esse detalhe. Acredito que já vieram de fábrica com aqueles nomes.
Minha tia Celina, dona dos cachorrinhos, a tudo assistia. Talvez para me manter próximo dela, nunca permitiu que eu os levasse para minha casa. Ela sabia que eu iria querer brincar novamente. Assim, ela teria a garantia de que eu voltaria à sua casa, o que a mantinha feliz pelo enorme carinho que tinha por mim.
Isso tudo aconteceu em uma época em que criança era criança. O mundo dos adultos estava muito distante e completamente incompreensível aos pequeninos, mas, com certeza, bem mais humanizado do que hoje.Lembro dos pipoqueiros, sorveteiros, padeiros e leiteiros, dentre tantos outros que regularmente passavam por nossas ruas em seus carrinhos ou charretes. Eles já faziam parte do nosso cotidiano. Não existiam meninos de rua, drogas, assaltos, seqüestros, e tantos outros absurdos.
Mas o tempo ia passando e as minhas visitas à minha tia iam perdendo a freqüência. O interesse pelos dois cachorrinhos ia desaparecendo, sendo substituído por outros atrativos à medida que eu crescia. Enfim, virei adulto. Não podia mais brincar. Afinal, os valores eram outros. Assim como eu, o mundo também mudou. Esqueci completamente os meus amiguinhos.
Mais alguns anos se passaram. Minha tia partiu, deixando Totsy e Rotsy guardados com seus pertences. Eu continuava sem lembrá-los.
Um dia, quase sem querer, reencontrei os dois cachorrinhos jogados em uma caixa de antiguidades na garagem. Ainda unidos, desconheciam o que acontecera durante o abandono a que foram submetidos. Continuavam parceiros, como se o mundo não tivesse tido qualquer modificação. Ao vê-los, relembrei os bons momentos de minha infância, a forma como eu brincava com eles, como se fossem verdadeiros. Mas fiquei com uma dúvida: manter a situação ou trazê-los ao meu novo mundo, cheio de novidades desagradáveis. Após pensar muito, optei por deixá-los da forma em que estavam. Afinal, para que magoá-los, mostrando a realidade?
O mundo hoje está cheio de Totsy e Rotsy, possíveis amigos separados por preconceitos. Pessoas discriminadas pela raça, religião, situação financeira ou profissão, dentre outros absurdos.Pessoas se matam pelo mesmo Deus. Verdadeiros genocídios acontecem em nome da fé. Divergências religiosas afastam pessoas que poderiam conviver pacificamente.
A simples diferença de cor, principalmente preto e branco, impõe sanções sociais e profissionais sem conceder o mais sagrado direito de defesa. Ao nascer, dependendo da cor, o destino é traçado, com raríssimas exceções.
O que Totsy e Rotsy seriam neste mundo? Continuariam amigos ou se tornariam inimigos pela diferença de cor? Prefiro continuar me lembrando de Totsy e Rotsy dos meus tempos de infância, com a pureza de quem não se importa com as diferenças, mas sim com as semelhanças que temos com nosso Pai: somos todos irmãos, independente de cor, credo, ideologia, classe social ou cultural.
Que Deus nos permita que um dia sejamos iguais a Totsy e Rotsy, diferentes e iguais ao mesmo tempo, mas, acima de tudo, amigos fiéis e dedicados, despidos de qualquer preconceito.

Claer Augusto Borda
(Todos os direitos reservados ao autor)

Um comentário:

ju rigoni disse...

Belíssimo texto que me fez lembrar da minha própria infância já tão distante!

E apesar dos pesares, é preciso continuar tentando manter vivo o que nos mantêm vivos: a esperança.

Bjs e inté!